quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

E agora?

O assunto desse texto será em homenagem a uma grande amiga - uma pessoa muito especial que me ajudou a ver o mundo gay totalmente sem preconceitos, numa época que esse assunto era um tremendo tabu.

Lembro-me muito bem do dia em que ela se assumiu. Veio falando cheia de dedos, a voz tremula, aflita, claramente com medo da minha reação. O choque foi enorme. O grito de espanto saiu da minha garganta antes que pudesse me conter.

Como assim, lésbica? Tudo bem, ela nunca foi muito feminina, mas sempre namorou meninos e nunca havia insinuado sentir qualquer atração por meninas.
Então, como, de uma hora para outra, ela me vira e solta essa bomba??!!!

E agora? Como seria nossa relação? Que mundo e que baladas ela freqüentaria agora?

Passado o impacto inicial, vi que minha amiga continuava a mesma pessoa. Ela não havia se tornado diferente por gostar de garotas. Nem melhor e nem pior. Aos poucos, começamos, juntas, a desbravar o universo gay, tarefa que, no inicio dos anos 90, era extremamente difícil, não só pelo preconceito, mas também pela falta de lugares legais para ir.

À medida que o tempo passava, comecei a perceber o quanto minha amiga tinha sofrido na adolescência. Por anos, ela havia tentado abafar aquele sentimento que surgia, indo a lugares que nada tinham a ver com ela, beijando diversos meninos para ver se sentia a mesma empolgação que as amigas, sentindo-se diferente por achar a Mara Maravilha muito mais gostosa do que o Rick Martin e se culpando muito por isso. Foi difícil para ela se aceitar, pois o mundo gay sempre fora tachado de sujo e aqueles que se assumiam eram rotulados como devassos, doentes, imorais. Agora, pensem como ficou a cabeça de uma garota de 16 anos tendo que lidar com tudo isso...

Nossa relação de amizade nunca mudou. Ao contrário, tornou-se mais forte ainda, havia uma confiança e um respeito mútuo entre nós. Ela falava das “suas meninas”, eu falava dos “meus meninos” e dávamos boas risadas sobre as diferenças, conversávamos sobre nossos medos, que eram semelhantes, independentemente da nossa escolha sexual, sobre nossos desejos...

O mundo hétero e o mundo gay não precisam se excluir, guerrear um contra o outro. Ambos são divertidos, em ambos existem pessoas sacanas e pessoas “do bem”, todos poderiam dar as mãos e juntos, lutarem por um mundo mais justo.

Amiga, obrigada por me mostrar tudo isso! Obrigada por me fazer ser uma pessoa sem preconceitos!